Por ISTOÉ
O
britânico Anthony Pereira estuda o Brasil desde os anos 1980,
trabalhando em universidades como a americana Harvard e a britânica
King’s College, onde, atualmente, dirige o centro de estudos
brasileiros. Para ele, a instabilidade política gera ansiedade. Mas, se
resultar em reformas, a confiança voltará. Pereira esteve em São Paulo
participando do projeto Um Brasil, plataforma de conteúdo patrocinada
pela FecomercioSP. Confira os principais trechos da entrevista:
Como está a imagem do Brasil no exterior?
Há muita ansiedade. Eu converso com investidores, estudantes e
acadêmicos. Há dúvidas sobre instabilidade e corrupção. Mas isso tem
dois lados. Ao mesmo tempo em que se descobrem os casos, você tem a
estrutura da Lava Jato que está condenando as pessoas. Quando comecei a
visitar o Brasil, nos anos 1980, era impensável um político receber uma
sentença de 14 anos (caso do ex-governador do Rio de Janeiro, Sérgio
Cabral). Se a Lava Jato resultar em reformas, a confiança no exterior
vai aumentar.
Qual será o legado da operação Lava Jato?
Não estou fugindo da pergunta, mas talvez seja cedo para julgar. Ao
mesmo tempo em que a Lava Jato está revelando essas relações promíscuas
entre empresas e políticos, o velho sistema e seus atores estão tentando
se sustentar. São duas correntes fortes em choque. Mas é muito
importante que deixe um legado positivo.
O Brasil sai fortalecido ou mais desacreditado?
Em certo sentido, há uma conquista importante, por meio dos órgãos
investigadores, como Ministério Público e Polícia Federal. Mas depende
muito da sociedade civil. Se ela ficar passiva e não reagir, ou não se
expressar nas urnas, as más práticas podem voltar.
Há um embate entre os poderes, como consequência da Lava Jato. Isso representa um risco para a sociedade brasileira?
Há o risco de o Congresso passar leis para diminuir a autonomia do
Judiciário. Um passo importante seria uma reforma do sistema partidário.
Não é suficiente condenar eticamente, é preciso substituir o sistema
velho por outro.
O Judiciário acabou se apropriando de espaços da política?
É interessante no Brasil o fato de que muita gente fala sobre a
judicialização da política, mas, por outro lado, também falam da
politização do judiciário. Às vezes eu acho que alguns atores, como
juízes, agem como políticos. Agora, em geral, o trabalho desses órgãos
está sendo muito importante.
O modelo de presidencialismo de coalizão está esgotado?
O atual sistema custa demais. Tem muitos partidos com menos de 1% do
voto popular. Criar uma cláusula de barreira, e nem precisa ser muito
radical, vai reduzir o número de partidos e baixar o custo das
transações entre o poder Executivo e o Congresso e também o custo de se
chegar a uma maioria.
Diante desse cenário, ainda há ideologia política no Brasil?
É um bom debate. Há quem alegue que não existe esquerda ou direita. Eu
acho que, em algumas áreas, há sim. Há quem queira um Estado mais
intervencionista e quem seja mais liberal. Isso é um aspecto clássico de
ideologia. No mesmo sentido, tem as questões sociais, como o casamento
gay e o aborto. Agora, tem uma ala conservadora que nega o direito dos
partidos de esquerda existirem. Do outro lado, há quem considere a elite
como ‘traidora’. Ambas as posições são ruins.
A estrutura do Estado, especialmente nas empresas estatais, precisa de uma menor presença partidária?
Eu acho que sim. Não me refiro ao controle financeiro das estatais. O
presidente do Brasil é responsável por indicar a contratação de 20 mil
pessoas. Isso é excepcional. O presidente americano indica quatro mil. O
primeiro-ministro britânico indica muito pouco, porque o serviço
público chega até ao segundo nível na hierarquia. É um bom momento para o
Brasil refletir sobre isso.
Em relação ao governo Temer, apesar de sua baixa popularidade, é possível tocar as reformas?
Acho que sim. O déficit fiscal ainda é grande, apesar de estar menor. Isso gera uma janela para o presidente fazer as reformas.
O presidente tem fôlego político para chegar ao fim do mandato?
Eu acredito que tem. Com a ressalva de que, talvez, sem ser capaz de
fazer todas as reformas. Ainda não sabemos o custo que ele terá para
segurar a base no Congresso e rejeitar as denúncias do Rodrigo Janot.
Minha aposta é que, se o governo Temer sobreviver até setembro, vai até o
fim do mandato.









